RETROSPECTIVA 2011: após 15 anos de espera, Brasil volta aos Jogos

O peso nas costas era grande, só que sem os Estados Unidos na briga, a chance de deixar de ser a geração do quase para ser lembrada como a geração olímpica era real. Duas vagas estavam em jogo na Copa América de Mar del Plata. O Brasil entrava na disputa sem três peças importantes no esquema tático, mas se desperdiçasse a oportunidade teria de ir para uma repescagem mundial. O sinal de que desta vez o final da história seria diferente, foi dado diante da Argentina. A seleção não tomou conhecimento da Geração Dourada, nem da pressão da arquibancada. Venceu e partiu confiante para a semifinal contra a República Dominicana e assegurou o retorno do país ao torneio masculino das Olimpíadas após longos 15 anos.
Desde a edição de Atlanta-96, o Brasil não era representado por suas duas equipes nos Jogos. No ano que vem, em Londres, as meninas do técnico Ênio Vecchi também estarão por lá. Da Copa América de Neiva, apenas uma equipe sairia classificada. Na decisão, o Brasil atropelou as hermanas, carimbou o passaporte e o treinador teve de cumprir a promessa de raspar o bigode. Em dezembro, Ênio foi avisado de que não teria seu contrato renovado. Um dia depois, Luiz Cláudio Tarallo, técnico da sub-19, foi anuciado pela Confederação Brasileira de Basquete (CBB) como o novo comandante.
Na NBB, o Brasília também fez o que se esperava dele. Defendeu o título, virou o time a ser batido, o bicampeão da competição. Na NBA, cinco anos depois o Dallas Mavericks se vingou do Miami Heat. Dirk Nowitzki finalmente realizou o sonho de sua vida com o anel da temporada 2010/2011. Confira a seguir os destaques da bola laranja ao longo do ano.

Rubén Magnano começou o ano no Paraíso, em São Sebastião do Paraíso. Deixou sua casa em São Paulo e foi morar na cidadezinha mineira para poder acompanhar de perto o trabalho dos meninos da seleção de desenvolvimento. Após seis meses, era hora de pensar na seleção principal. E o que ele mais temia acabou acontecendo. Não pôde contar com três de seus principais jogadores para a Copa América. Sem Anderson Varejão, se recuperando de uma cirurgia no tornozelo, Nenê e Leandrinho, que pediram dispensa por motivos pessoais, o caminho até a vaga olímpica tinha tudo para ficar mais complicado. Mesmo assim, o técnico argentino não se deu por vencido.
Convocou novos jogadores e tratou de colocar na cabeça do grupo que não se podia mais pensar nos que não estavam lá. Era preciso ter compromisso e pegar a vaga. Foi o que fizeram. Diante de seus compatriotas, que o reverenciaram antes dos jogos, Magnano cumpria ali a missão que lhe foi confiada em 2010. O feito lhe rendeu o prêmio oferecido pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) de melhor técnico do ano nos esportes coletivos. A temporada terminava como começou: no paraíso.
No dia 10 de setembro, em Mar del Plata, o jogo era de vida ou morte. Diante da República Dominicana, a seleção masculina poderia pôr fim a um incômodo jejum olímpico ou seguir acompanhando a tudo pela TV. Escolheu fazer parte da festa. Suportou a pressão imposta pelo adversário e pela arquibancada, mostrou vontade e contou com uma arma vinda do banco de reservas para dar uma preciosa contribuição naquela semifinal. Marcelinho Machado, o ala-armador de 36 anos, foi o cestinha do jogo com 20 pontos e deixou a quadra chorando. Chegava ao fim a busca que iniciou em 1999.

Na temporada passada, Damiris surgiu como a grande aposta do basquete feminino brasileiro. Com apenas 17 anos, foi pega de surpresa ao ser convocada para a disputa do Mundial adulto, mas não demorou para passar de reserva a titular na República Tcheca. Neste ano, a jovem pivô continuou evoluindo. Foi o grande nome da conquista do inédito bronze no Mundial sub-19 sobre a Austrália: 70 a 67. Fez mais. Além da medalha, trouxe o título de melhor jogadora da competição na bagagem.
Damiris agora tenta se acostumar com os holofotes voltados em sua direção. Sonha jogar tanto quanto Érika e seguir seus passos rumo à Europa e WNBA. Quer conquistar o maior número de títulos com a camisa do Brasil.

O Brasil entrou no Pan de Guadalajara atrás de dois ouros. Medalha que seria a quarta seguida para a equipe masculina. Só que os comandados de Rubén Magnano passaram bem longe dela. Sem poder contar com Caio Torres, Tiago Splitter e Alex, que pediram dispensa, a CBB também esbarrou na dificuldade de conseguir a liberação dos clubes, que estavam envolvidos na fase final da disputa dos estaduais. Mesclada com jogadores da seleção sub-19, a equipe desperdiçou as chances de vencer EUA e República Dominicana, depois de terem vantagem confortável no marcador, e não conseguiu passar da primeira fase do torneio. Mesmo que a preparação não tenha sido a ideal, nem jogadores nem treinador a usaram como desculpa para justificar a eliminação precoce. Restava a disputa pelo quinto lugar. E ele veio.
Entre as mulheres, o objetivo era tentar voltar ao alto do pódio. A última vez que o Hino tocou numa edição de Pan foi em Havana-91. O time estava com suas principais peças, inclusive com Iziane, que tinha pedido dispensa da Copa América. O problema foi o "apagão". E o da partida contra Porto Rico custou a ida à final. A direrença de apenas um ponto, arrancou lágrimas, principalmente de Damiris, que não conseguiu converter a cesta, a 1s do fim. Não havia tempo para lamentar. Ainda havia um bronze em jogo. Sem criar resistência, num confronto morno, a Colômbia não fez frente para a seleção.

A rotina de 2010 continuou em 2011. O Brasília não tomou conhecimento dos adversários e se transformou no time a ser batido no basquete brasileiro. Desta vez, o bicampeonato do NBB veio sem precisar medir forças com o maior rival dos últimos anos: o Flamengo. A equipe da Gávea acabou batida pelo Franca na melhor de cinco semifinal por 3 a 0. Na mesma fase, o time de Alex e Guilherme Giovannoni passou pelo Pinheiros e depois pelos francanos, erguendo pela segunda vez seguida o troféu da competição.
Na Liga de Basquete Feminino (LBF), Santo André desencantou. Depois de 12 anos sem conquistar um título brasileiro, a equipe da técnica Laís Elena colocou em sua galeria a taça da primeira edição da competição ao bater Ourinhos na decisão.
15 | 22 anos e 191 dias | 68 a 59 |
---|---|---|
Foi o número de jogos que o ala-armador Leandrinho fez com a camisa do Flamengo durante o locaute da NBA. | Derrick Rose, armador do Chicago Bulls, foi eleito o MVP mais jovem da NBA ao receber 113 dos 121 votos na temporada 2010/2011. | Foi o placar da final da Euroliga. O Halcón Avenida da pivô Erika bateu o Spartak, na, Rússia e levou o título inédito da competição. |

A novela do locaute da NBA durou mais de cinco meses. Jogadores e equipes cruzaram os braços, não se entendiam sobre os salários e a temporada, que deveria ter início em outubro, ficou ameaçada. As reuniões eram longas, mas o impasse continuava. Alguns jogadores foram para a Europa, outros voltaram a atuar em clubes de seus países.
Durante o período, houve troca de farpas entre as partes. Os jogadores dissolveram seu sindicato e entraram na justiça contra a liga. Os proprietários diziam que os atletas não negociavam com boa fé. O comissário da NBA, David Stern, acreditava no cancelamento da temporada. Além disso, Michael Jordan também passou de ídolo a vilão aos olhos dos jogadores. Dirigente do Charlotte Bobcats, ele liderou o grupo de donos de equipes que não aceitou proposta de divisão dos lucros da liga.
Depois de muita discussão, a greve chegou ao fim no início de dezembro. O acordo trabalhista foi acertado por 10 anos e a temporada, com apenas 66 jogos para cada time, será iniciada no dia 25, com cinco partidas. Logo após o anúncio, nova polêmica. A NBA No mesmo dia em que o início da temporada foi anunciado oficialmente, a NBA vetou a troca entre Los Angeles Lakers, New Orleans Hornets e Houston Rockets.


Leandrinho passou por momentos difíceis. O pedido de dispensa da Copa América, enviado meia hora antes da apresentação segundo a CBB, gerou críticas. O ala-armador do Toronto Raptors se defendeu. Disse que a entidade e o treinador da seleção sabiam de sua condição, de que estava jogando no sacrifício devido à lesão crônica no punho direito. Seu time também o pressionava por conta do problema. Por não saber se ficaria 100% após a cirurgia, resolveu apostar no repouso para se recuperar. A imagem estava arranhada, e ele sabia. Mas afirmou que ninguém se colocava em seu lugar. Resolveu então aceitar a proposta para jogar no Flamengo durante o locaute. Na passagem pela Gávea, garante que recuperou a vontade e autoestima. Se estará na seleção durante os Jogos Olímpicos, ainda não sabe, mas espera que as portas ainda estejam abertas:
- Se tiver uma vaga para mim, quero ir até para servir água. Quero estar com eles. Sinto muita falta dos jogadores. Tanta, que vivo em contato direto com Tiago Splitter e ele me diz que eles sentem a minha falta também - disse.

Rafael Hettsheimeir não se intimidou diante dos campeões olímpicos da Argentina. Pelo contrário. Foi a sombra de Luis Scola, deu um toco que o levou ao chão, marcou 19 pontos e foi o grande nome da vitória do Brasil sobre os hermanos na Copa América de Mar del Plata. Em sua primeira chance na seleção adulta, o calouro de nome complicado que joga na Espanha se tornou imprescindível no garrafão.
Hettsheimeir aproveitou as ausências de Anderson Varejão e Nenê no torneio para retribuir a confiança de Rubén Magnano. Não só a ele, mas também para o Brasil inteiro. Tímido, ele admitiu que aquele foi o melhor jogo de sua carreira, mas que o importante mesmo tinha sido a vitória. Tinha feito o seu trabalho e esperava que a partir dali não só seus conterrâneos de Araçatuba acompanhassem seus jogos, mas o resto do país também.
Autor: ,postado em 30/12/2011
Comentários
Não há comentários para essa notícia